22 de julho de 2017

Moçambique: Antiga Cidade de Lourenço Marques



Carta de Ana Catarina Costa enviada por email ao Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa



Ao Excelentíssimo Presidente da República Portuguesa, Professor Marcelo Rebelo De Sousa;
Ao Excelentíssimo Senhor Primeiro Ministro da República Portuguesa, Dr. António Costa;
Ao Excelentíssimo Provedor da Justiça, Professor José de Faria Costa;
Aos Excelentíssimos Ministra da Administração Interna, Doutora Constança Urbano de Sousa, e Ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Dr. José António Vieira da Silva.
Aos Exmos. Senhores Presidentes / Demais cargos dirigentes da União das Misericórdias: Manuel Augusto Lopes de Lemos, José Albino da Silva Peneda, Francisco Rodrigues de Araújo, Licínio Pina, Paulo Gravato, Rui Filipe Rato, Carla Nunes Pereira, Joaquim dos Santos Guardado

Venho, por este meio, na qualidade de irmã da Sara Elisa Dinis Costa (mãe do menor de 7 anos, X), falecida no incêndio de Pedrógão Grande, questionar onde é que estão as ajudas tão apregoadas.

Agradou-me o facto de ter recebido uma mensagem do Excelentíssimo Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, no funeral, mas por outro lado choca-me não ter sido contactada por ninguém com responsabilidades mandatado para o auxílio das vítimas. Também gostaria de saber qual o destino das doações recentemente efetuadas à “causa” das vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande.

Duas cervejas que contam a história de Moçambique (Cláudia Faria)



"Contra factos não há argumentos e um facto dentro de um copo é Laurentina, Laurentina a grande cerveja para grandes sedes" (Autor: MOZ deste blog)


A Laurentina dispensa apresentações, a 2M é hoje a mais vendida. Estas duas cervejas, criadas na época colonial portuguesa, contam a história de Moçambique nos últimos oitenta anos. E rimam com calor.

Sentado na esplanada do restaurante Piri-Piri, em Maputo, Manuel Teixeira recorda o tempo em que pedia uma cerveja Laurentina ou uma 2M e os empregados lhe traziam um prato de camarões para acompanhar. «Eram os nossos tremoços», diz. Foi há mais de 35 anos e a cidade, então chamada Lourenço Marques, era a capital da província ultramarina de Moçambique.


O empresário português, que ao longo das últimas décadas viajou para o país regularmente, foi testemunha da prosperidade da época colonial, da miséria dos anos da guerra civil (Moçambique chegou a ser o país mais pobre do mundo) e do renascimento da última década em que os índices de crescimento atingem os sete por cento ao ano.

@Verdade Editorial: Há razões para não sermos patriotas



O Presidente da República, Filipe Nyusi, prossegue com as suas visitas improdutivas que efectua às instituições públicas e/ou do Estado, na tentativa de aldrabar incautos, que ele se considera o seu empregado, e renovar, provavelmente, o seu mandato, e tem estado a mostrar a sua suposta indignação para os jornalistas verem e reportarem.

Recentemente, Nyusi dirigiu-se ao Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos. E, como sempre, o Chefe de Estado ficou surpreendido com tudo aquilo que já sabemos e que não preciso de uma visita para se dar conta dos graves problemas que assolam as instituições do Estado. Mas, desta vez, Filipe Nyusi, aproveitou a visita ao ministério que tutela os assuntos religiosos para soltar esgares à igreja católica por ter exigido um esclarecimento sobre as dívidas ilegais de que ele também é um dos principais arquitectos. A igreja não pode estar alheia a situações que têm estado a desgraçar os moçambicanos, como é o caso das dívidas ilegais, até porque não é só de orações que é feita uma igreja.

21 de julho de 2017

Biografia de Carlos Cardoso (Cristóvão Araújo )



Esta segunda-feira, dia 22 de Novembro, assinala-se o 10 º aniversário da morte do jornalista moçambicano Carlos Cardoso, assassinado ao início da noite desse dia na Avenida Mártires da Machava quando o carro em que seguia foi alvejado por vários tiros. Na altura, Cardoso dirigia-se a casa depois de mais uma jornada de trabalho no ‘Metical’, o periódico onde era editor.

Carlos Cardoso nasceu na Beira no ano de 1951. Estudou primeiro em Moçambique e depois a nível secundário e universitário na África do Sul, na universidade de Witwatersrand, onde foi expulso e deportado para Portugal pelas suas posições anti-apartheid. 

Após a independência de Moçambique, em 1975, ao contrário da família e da grande maioria dos elementos da comunidade branca, Cardoso resolve ficar e engaja-se profundamente nos ideais da Frelimo, revendo-se sobretudo nas posições do primeiro presidente Samora Machel. Em 1980, é nomeado editor da AIM (Agência de Informação de Moçambique). Anos depois, torna-se conselheiro de imprensa de Samora Machel e prevê que algo de muito grave está para se passar com o presidente, sendo um dos que desaconselha a viagem do presidente para a viagem fatídica, em Outubro de 1986. 

"Nus" (Carlos Cardoso)



            ...por tudo isto, as pessoas que registam devem merecer pelo menos o nosso apreço. São elas que projectam, para lá das fronteiras etárias e sociais, a trajectória que hoje traçamos no éter. Deixá-las registar, bem ou mal, até mesmo os mal - intencionados, que acabam por não ser mais do que o registo de si próprios.

            Esconder o quê? Andamos nus. E quanto mais nos desnudarmos, mais as gerações vindouras saberão, em silêncio, respeitar a intimidade com que nos demos, entre nós e à Natureza.

            Nada se esconde por muito tempo. Nada. Os reis de outrora, tão convencidos que estavam da sua altivez, dos seus adornos de poder, da sua distância em relação aos humildes, são hoje examinados por historiadores, por jornalistas, por «homens comuns», tal como os ratos são examinados num laboratório.

SELO: O papel das novas tecnologias e da televisão na educação dos jovens - Por Miguel Luís



De um tempo para cá, a juventude mundial, em concreto a moçambicana, vem passando por transformações de vária ordem, das quais algumas são benéficas e outras nem nos sonhos. As referidas transformações têm lugar num período da História da humanidade em que se respira o ar da nova era, "a era das novas tecnologias". Esta era, que significa um grande avanço para a humanidade no que concerne às invenções tecnológicas, é caracterizada pela facilidade e eficiência na obtenção de serviços que abrangem a educação, a saúde, o lazer, o entretenimento, dentre outros.

A facilidade e eficiência na obtenção dos serviços aludidos é feita através de aparelhos electrónicos de última geração, que alguns os chamam de novas tecnologias, tais como o computador, o telemóvel, a câmara, a televisão, dentre outros.

Coincidências acontecem, não obstante prefiro dar primazia científica ao facto de dois fenómenos terem lugar no mesmo espaço de tempo, e questionar metodicamente, qual será a relação existente entre as mudanças em nada benéficas na vida dos jovens e o papel que as novas tecnologias prestam na educação destes?

4 de julho de 2017

SELO: Salários e o Aeroporto do Xai-Xai - Por José Maria de Igrejas Campos



O governo comunicou recentemente as subidas que irão sofrer os salários. No que diz respeito ao Aparelho de Estado e Função Pública houve uma primeira informação que se referia a uma subida de 21,5% para no dia seguinte se informar que tal percentagem de incremento se aplicava apenas aqueles que recebem o salário mínimo, recebendo os restantes trabalhadores do Estado apenas um aumento de 500 (quinhentos) meticais.

Eu gostava de saber o que pensa a ministra da Saúde quanto ao impacto desta subida salarial no desempenho dos médicos, enfermeiros e outros técnicos do sector da Saúde, tendo em conta a taxa de inflação.

Gostava de saber, também, o que pensa a ministra da Educação quanto ao impacto desta subida salarial no desempenho dos professores e outro pessoal técnico do sector, face à inflação.

Diz o Governo, quando anuncia esta subida salarial, que é aquilo que é possível.

Entretanto, os órgãos de informação dizem que o Governo está a contrair novos empréstimos e que a dívida pública está a aumentar e a aproximar-se dos 100% do PIB.

O FMI num relatório recente mostra certas preocupações em relação a estas novas dívidas que estão a ser contraídas por este Governo. Como se justifica que o Governo vá construir um Aeroporto Internacional no Xai-Xai apresentando fundamentos para a sua efetivação que nos dão vontade de rir: onde está o turismo na zona do Xai-Xai que justifique um aeroporto? Durante quantos dias por ano este aeroporto servirá de aeroporto de recurso?

Quanto a mim nenhum, pois não me recordo de o Aeroporto de Mavalane ter encerrado por razões climáticas ou outras, e se as houver, essas razões irão atingir o projectado aeroporto do Xai-Xai que se prevê se situe apenas a 217 Km de Maputo. Podem acusar-me de misturar gastos correntes com investimento. Estou a falar de dinheiro gasto em coisas inúteis.

Ao referir isto é de suspeitar que no orçamento de gastos correntes haja igualmente má utilização de fundos acrescido aos desfalques que os nossos dirigentes e seus associados fazem diariamente conforme nos vem informando a imprensa, rádio e televisão, com a complacência da P.G.R. Pelo menos não tenho conhecimento de que nos últimos tempos alguém tenha sido detido, acusado, julgado com sentença transitada em julgado e devidamente encarcerado, mesmo com o nome e o dinheiro roubado escarrapachado em vários órgãos de informação e organizações da sociedade civil.

28 de junho de 2017

SELO: A independência de Moçambique e "O Triunfo dos Porcos", os acontecimentos e a narrativa… - Por Miguel Luís



Sei que muitos me tomarão como profano ao baptizar a presente reflexão com o título em epígrafe, pois de longe carrega uma conotação pejorativa e a demonstração de um sentimento anti-nacionalista. Porém, sei mais ainda que as mentes mais sensatas se deixarão possuir pelo espírito racional e realista que caracteriza a mesma reflexão e me ilibarão de tais acusações.

O Triunfo dos Porcos, A Quinta dos Animas ou ainda Animal Farm são os títulos do livro de George Orwell publicado em 1945, um dos mais iluminados escritores britânicos do século XX. A pergunta que não quer calar provavelmente seja onde entra Orwell e seu livro na história da independência de Moçambique, ainda com o título que carrega.

Quem for ler o livro em causa perceberá que se trata de uma fábula que narra a história de um conjunto de animais domésticos que vivia numa quinta no interior da Inglaterra e por entender que o seu dono e os demais seres humanos aproveitavam-se dos trabalhos e bens produzidos pelos animais e no fim ainda os maltratavam, algo que não deixa de ser verdade, decidem levar a cabo uma rebelião e expulsam os homens que os maltratavam para passarem a partir daquele momento a dirigir as suas vidas.

22 de junho de 2017

A padeira de Favaios que serviu Oliveira Salazar, Rosália Araújo viveu entre os 13 e os 19 anos em São Bento. Estava ao lado do ‘patrão’ quando ele morreu.



Estacionámos junto à Igreja, que os carros não chegam à casa. Fazemos o resto a pé, calcorreando o empedrado que leva a Rosália. Ainda perguntámos onde fica a um morador, que aponta a casa lá ao fundo. Dizemos-lhe que queremos falar com a ‘Rosália do pão’, mas podíamos dizer a ‘Rosália de Salazar’. 

Em Favaios, freguesia transmontana conhecida pelo moscatel, Rosália recebe-nos com um sorriso. Ri sempre, ri muito e também chora ao falarmos do homem que sempre a tratou por "pequena". O homem que mandou no País durante quase quatro décadas e que Rosália serviu mais de cinco anos. Era uma menina de 13 anos quando entrou no austero palacete de São Bento, era ainda menina quando saiu, após a sua morte. Tinha 19 anos e estava ao lado de Salazar quando a enfermeira, em pânico, gritou para os médicos que ele não respirava. Que tinha morrido. 

Quis a coincidência que ela nascesse a 28 de maio de 1951, quando se assinalavam os 25 anos da queda da Primeira República, que abriu as portas ao Estado Novo. Se começarmos pelo fim, Rosália confirma o que sabíamos. Nos últimos dois anos de vida, Salazar pensava que conservava o poder. O Presidente da República Américo Tomás mantinha a farsa e ia regularmente falar com o homem que já não era o Presidente do Conselho. Morreu a pensar que mandava em Portugal e nas colónias. E também Rosália, que mal saía do palacete, desconhecia que o ‘todo poderoso’ afinal já não o era. 

SELO: As confissões de um deputado - por Incógnito Abutre da Nação



Saúdo solenemente a todos que se encontram neste exacto momento a ler esta magna carta. Em primeiro lugar, é de salientar que redijo a presente carta com a tinta vermelha das lágrimas que o povo do meu país, o povo que votou em mim, tem derramado diariamente.

Meus esfomeados cidadãos, excelências…

Meus pobres irmãos, excelências…

Meus homólogos parasitas, aliás, deputados da minha bancada parlamentar. Excelências…

Minha nação, isto é, minha matéria-prima, excelências…

Para começar, quero esclarecer que escrevo a presente carta com o objectivo de narrar, isto é, revelar o que está por de trás da minha barriguda e bronzeada figura. Sim, quero mostrar-vos o avesso moribundo desta lisonjeada pessoa que tanto respeitam, honram e chamam por Sr. Deputado: representante do povo.

Sei e reconheço que é raro um criminoso do meu escalão profissional confessar os seus próprios crimes, mas decidi faze-lo para ver se o povo do meu país deixa de adormecer e toma uma atitude severa perante a injustiça que nós, os políticos, temos patrocinado no meu país e em todo o mundo.

27 de maio de 2017

Porque é que em Moçambique na cidade podemos vender a terra e a casa mas no campo não, João Carrilho



A Lei de Terras em vigor no nosso país é referenciada como sendo boa pela generalidades da sociedade porém alguns académicos consideram-na ultrapassada para a realidade actual. João Carrilho afirmou que o dispositivo legal deve ser repensado e lembrou que a norma constitucional de que a“terra não deve ser vendida, ou por qualquer outra forma alienada” é inspirada numa lei de 1917 proclamada pelo primeiro Congresso Soviete. Uma posição partilhada por António Francisco que recordou-se do provérbio africano “quando os brancos vieram para a nossa terra, nós tínhamos a terra e eles a bíblia, agora nós temos a bíblia e eles têm a terra”, o professor de Economia perguntou “depois dos brancos partirem quem ficou com a terra?”

A reflexão dos académicos aconteceu na passada quarta-feira(24) durante um concorrida conferência organizada pelo Observatório do Meio Rural(OMR) e que tinha por objectivo discutir a diversificação da economia moçambicana “sob o ponto de vista estrutural, com enfoque para a agricultura”.

Relembrar 7 de Setembro de 1974 por Carlos Branco



Recebi do meu amigo e camarada de há trinta anos, Carlos Branco, este testemunho vivencial do 7 de Setembro de 1974 em Moçambique.

«Quando chegou a Vila Pery a notícia de que havia ocorrido uma revolução/golpe de estado em Portugal, de um modo geral e ingenuamente os portugueses ali residentes acolheram-na com esperança. Depois de mais de uma década de guerra que sabíamos estar a ser deliberadamente perdida pensámos que o novo governo iria alterar estratégias no sentido de inverter o processo. Durante mais de 13 anos de guerra, assistimos a um facto: de vitória em vitória sobre os "turras" a área abrangida pela guerra, ao início confinada ao norte de Cabo Delgado e Niassa, tinha chegado depois a Tete, onde apenas o perímetro de Cabora Bassa era zona segura, e em 1974 o corredor da Beira, onde eu residia, era já zona de guerra, com ataques a quintas, camionetas de passageiros, comboios, automotoras e automóveis particulares. Havia uma explicação e era muito simples: em zona de guerra, a chamada "zona 100%", os oficiais do quadro recebiam o dobro do vencimento, à laia de subsídio de risco. Logo, quanto maior fosse a área afectada pelo conflito maior número de militares beneficiaria financeiramente. Podem tirar as vossas conclusões. Podem também perceber a esperança que o 25 de Abril levou aos portugueses em Moçambique. E curiosamente, estava Spínola no epicentro do terramoto político, eu próprio vi no aeroporto da Beira, que era anexo à Base Aérea 10 da FAP, um Boeing de carga a descarregar várias peças de artilharia e 2 F-86 Sabre (caças a jacto) desmontados que iriam reforçar o dispositivo militar regional.

O 7 de Setembro de 1974 visto por Rui de Castilho




«Em Lourenço Marques era a velada de armas. Os dias que se iam seguir, seriam o ruir de todas as últimas esperanças, a inimaginável matança, a selvajaria completa, brutal inesperada. Brancos de pele pintada de negro iriam pelo Caniço explorar os mais baixos instintos da populaça; hordas de negros drogados, bêbados, excitados, iriam massacrar mulheres e crianças, capitaneados por uma Frelimo exultante; dos militares, emparedados na perplexidade, entre os seus compatriotas de raça e de cultura a caírem mortos ao lado e as ordens de Lisboa de subjugar, esmagar, os “revoltosos”, não houve resposta.

Ou só houve a simbólica, dos poucos que destruíram as próprias armas, carregadas de balas simuladas, impotentes ante o genocídio.

Os moçambicanos pagariam demasiado caro, ao preço do horror, uma certa leviandade a tratar com aqueles que os defenderam durante mais de dez anos.

À esquerda, o sol mergulhou finalmente, no oceano, deixando uma fugaz mancha rubra, ainda e sempre num reforçar de augúrios, como um lago de sangue, que logo desapareceu.
Findava o dia sete de Setembro de 1974.

Pela primeira vez em quatrocentos e setenta e seis anos a Noite cobria o Império.»

In Rui de Castilho, O Capitão do Fim, Prefácio Lda, 2002, p. 474

O 7 de Setembro de 1974 visto por Rui Barandas



O drama dos brancos em Moçambique, começou com o acordo de Lusaka, ao qual Mário Soares presidiu e no qual foi assinado a entrega de Moçambique aos terroristas (assim eram conhecidos e tratados), algo que deixou toda uma população de milhares de brancos em estado de choque,causando um clima de pânico e de alarmismo jamais vividos naquele terrítório. Como podia ser? Então o 25 de Abril, com tantas promessas de Liberdade culminou nisto? Entregar Moçambique desta maneira sem garantias para os brancos, sem um referendo, sem nada? Repentinamente e espontaneamente milhares e milhares de brancos, tomaram conta das cidades incluindo a capital, Lourenço Marques.

Ricardo Saavedra ou o 7 de Setembro de 1974 por mão-própria



«Como observa, e com inteira pertinência, o nosso autor de hoje: se o General Spínola não existisse, talvez razão não houvesse — não havia, seguramente, razão alguma — para que este livro se tivesse escrito. Simplesmente, acontece que Spínola existiu mesmo, e — ai de nós! — com ele e a par dele existiu, também e sobretudo, esse abundante viveiro de renegados, que o mesmo Spínola foi deixando criar à sua volta, por pura imbecilidade. Adiante.

Da África do Sul nos chega este livro, já hoje em 5.ª edição. E bem pode dizer-se que o mesmo é natural de Joanesburgo, uma vez que foi lá que Saavedra — ou o exilado que quiseram que ele seja — o escreveu e publicou. A primeira tiragem do trabalho data de há mais de um ano e esgotou-se logo em dois dias, ficando a constituir o maior best-seller de expressão portuguesa até hoje editado no continente africano.

Da reportagem se trata, e empolgante. E nem o facto de ser conduzida em bases e em termos preponderantemente emocionais — com a descarga dos nervos a sentir-se sempre à flor da pele da narrativa —, nem isso chega para molestar a objectividade desta, que é da ordem dos cem-por-cento. Assim, toda e qualquer semelhança de figuras ou factos focados no livro com personagens e ocorrências verídicas está longe de ser mera coincidência.

Moçambique - 7 de Setembro de 1974 por António Maria Zorro



«Foi a meio da tarde de domingo, 8 de Setembro de 1974, que os portugueses do que então era ainda Portugal Metropolitano se aperceberam da gravidade do que estava a passar-se em Lourenço Marques, onde, na véspera, um grupo de jovens tomara o Rádio Clube de Moçambique, transformando-o em “Voz de Moçambique Livre”: com adesão espontânea de milhares de pessoas sem distinção de milhares de pessoas sem distinção de raça ou de credo político ou religioso, com a participação de representantes de todos os partidos políticos ali criados após o “25 de Abril”, com a colaboração, até, de antigos chefes da guerrilha antiportuguesa, essa “Voz de Moçambique livre” erguia-se contra a miserável subserviência do governo de Lisboa face aos agentes do imperialismo marxista e, em especial, contra a entrega de Moçambique à Frelimo, acabada de firmar em Lusaka.

26 de abril de 2017

SELO: Não há boa higiene nas escolas Francisco Manyanga e Josina Machel em Maputo - Por Rabim Chiria



A organização Mundial de saúde (OMS) define a saúde como sendo um estado de bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência de doença e de enfermidade. Neste contexto, as enfermidades são entendidas como uma violência à saúde, e a higiene é uma das armas para Combatê-la. Ora, as condições de higiene e saneamento nas escolas são relevantes para garantir a saúde mental e física dos alunos, dos professores e de outros funcionários.

Porém, não é o que eu vejo nos estabelecimentos de ensino, particularmente públicos, tais como a Escola Secundária Francisco Manyanga e a Escola Secundária Josina Machel.

Aliás, o edifício da Escola Secundária Francisco Manyanga é espectacular por fora, mas por dentro é como se fosse uma pêra grudada na pereira, que só se nota no dia da queda.

30 de março de 2017

SELO: Moçambique dos meus sonhos - Por Júlio Khosa



Moçambique é um Estado independente, soberano, democrático e de justiça social. Assim diz a nossa Constituição. Para o seu funcionamento, no contexto democrático, tal como defende a Constituição, o “Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade” e, “o povo moçambicano exerce a soberania segundo as formas fixadas na Constituição”. Portanto essa mesma soberania reside no povo. Para que isso aconteça, a República de Moçambique através da sua Constituição assume-se como “um Estado de Direito, baseado no pluralismo de expressão, na organização política democrática, no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais do Homem”. Até aqui tudo bem. Este é o tipo de Estado que almejo ter. Será que isso na prática acontece? Questionam-se essas afirmações.

O Moçambique dos meus sonhos é aquele que, de facto, a soberania reside no povo e que o povo encontra-se em pleno gozo dos seus direitos fundamentais (direitos e deveres, é óbvio); onde o povo manda, decide o que quer e o que não quer que seja; onde o povo tem voz activa e tem direito a reivindicação dos seus direitos (direito a manifestação e/ou greve); onde quando o povo elege (voto) é dado o que na verdade escolheu.

27 de março de 2017

País de alarves (Francisco Moita Flores)



Para combater a violência doméstica, o poder dá uns trocos, por caridade.

Em dois dias, cinco cidadãos, a maioria mulheres, foram assassinados, em contexto de violência doméstica, às mãos de alarves. É nossa a gente que morre.

Infelizmente, também é nossa a gente que mata. Somos isto. Um país culturalmente subnutrido. Analfabeto no que respeita  a competências de cidadania.

Somos o país onde a violência doméstica é praga e quando dela se fala, apetece zurzir polícias indiferentes, procuradores negligentes e juízes de grande tolerância.Porém, é fácil disparar contra a Justiça. É quem está mais à mão. É o reduto do poder por onde passa aquilo que está criminalmente consumado.

Mas o País é bem mais do que um sistema judiciário. É a história de um Ministério da Educação, multiplicador de reformas, incapaz, incompetente, medíocre, governo após governo, que se preocupa com a Matemática, com o Inglês, mas que é indiferente à educação e formação de boas pessoas. É um Ministério da Saúde vaidoso, arrogante e medíocre que, governo após governo, desprezou a saúde mental, que encolhe os ombros aos apelos de psiquiatras e psicólogos que denunciam um País sem apoios para controlar psicopatas. É um Ministério da Segurança Social antissocial, que governo após governo, trata a protecção de menores, a monitorização de famílias em risco através de burocratas. É este país, infestado por todos estes alarves, que assiste, dia após dia, à chacina de inocentes. Morreram em Portugal mais vítimas de violência doméstica nos últimos dez anos do que vítimas de terrorismo em toda a Europa. Se para os ideólogos do securitários, o poder está de perna aberta, para a violência doméstica, o poder dá uns trocos por caridade. É este poder assustado e alarve quem está no banco dos réus de tantas mortes. 

Por indiferença, por omissão, por ser herdeiro legítimo de Pôncio Pilatos. Quantas vítimas serão necessárias para que despertemos deste longo pesadelo?


Correio  da Manhã. 26 de Março de 2017