1 de janeiro de 2010

Candongueiros! (Francisco Manjate)

Candongueiros!

Candongueiro é um termo que na década 80 ficou famoso ao ser atribuído aos açambarcadores e especuladores de produtos alimentares. Este apontamento faz ligação entre os candongueiros dessa época e os especuladores contemporâneos.

A dança que se vive na cidade de Maputo e um pouco por todo o país para a aquisição de cerveja e refrescos configura a incapacidade, ao extremo, das fábricas 2M e Coca-Cola em abastecer o mercado com estes produtos.

E ao discurso dado pelas duas empresas, em finais de Novembro e princípios de Dezembro, de que tinham stock’s suficientes para fazer frente à demanda dos consumidores substituiu-lhe o de que os clientes estavam a “guardar” os vasilhames em suas casas, razão principal para que estas não chegassem às fábricas para o seu respectivo enchimento. Quer dizer, nas reservas há muita bebida, o que não há são recipientes para transportá-la aos mercados.

Isto equivale a dizer que os clientes preferem ter em suas casas garrafas vazias ao invés de irem aos recintos de abastecimentos para comprarem cerveja e refrescos, muito necessários nesta quadra festiva. Esta é, no mínimo, uma filosofia ilógica e sem fundamentação.

Nesta complexa teia que se assiste nos depósitos de venda de bebidas assoma-se ao retorno de um tempo e de uma máxima há muito esquecida de: uma caixa de refrescos e de cerveja por pessoa. Sem dizer que este mesmo princípio não respeita à escolha de sabores. Reina a imposição: “Se não queres deixa!”

Ao lado deste triste cenário acompanha a chantagem de que se quiseres cerveja familiar (550ml) ou mesmo refrescos (330 ml) torna-se obrigatório adquirir também a cerveja e os refrigerantes em lata, o que depreende, à primeira vista, que os produtos há muito armazenados por falta de mercado, em virtude da fraca procura em períodos normais, agora estão a ser despejados, a preços estonteantes, sem garantia das validades de consumo.

Perante esta realidade, a ideia com que se fica é que todos os discursos foram simplesmente para ninar “os bois”. E se é o que se pretendia, então vale mesmo dizer que o mesmo foi conseguido.

Mas, como se não bastasse esta da falta de cerveja e refrescos, para complicar ainda mais o cenário nebuloso de uma quadra infestada de acidentes de viação, surgem os especuladores que ao dobrar da esquina mudam de preços à mesma velocidade da escassez do dinheiro.

Não se explica que um frango que até há bem pouco tempo estava a ser comercializado por 90/95 meticais hoje, esteja a roçar a fasquia dos 110/120, ainda por cima sem que o mesmo obedeça ao peso de 1kg, para não falar dos sacos de batata e de cebola que não chegam a atingir os 10 kg. Uma roubalheira que acontece aos olhos dos fiscais. Que vergonha!

Por fim, dizer que tudo isto nos entristece. Porque nós os outros, ficamos afectados de forma directa com esta postura dos candongueiros. Que todos aqueles que nos prometeram abastecer o mercado saibam que a festa do “reveillon” será passada por “meio mundo” com a garganta seca. E a minha esperança é que no próximo ano não nos venham dizer que têm capacidade para abastecer o mercado em produtos, combater os especuladores e quejandos, porque disto já estamos cansados.

“Bom apetite!”

FRANCISCO MANJATE
Maputo, Sexta-Feira, 1 de Janeiro de 2010:: Notícias