23 de março de 2014

11 de março de 2014

Moçambique: Casa Portugal na Cidade da Beira



Inicialmente designada por Casa Fabre, situa-se no Largo Araújo de Lacerda (atual Praça do Metical). Foi construída no final do século XIX, tendo estado ali instalado o «cabo submarino». Insere-se na chamada «arquitetura de ferro», com três pisos avarandados cobertos, apoiados em finos pilares.


Fonte: Arquivo Pessoal


Moçambique: Casa dos Bicos na Cidade da Beira



Construída por iniciativa da Junta de Comércio Externo, para ali se instalar o «Pavilhão de Exposições Permanentes de Atividades Económicas». O projeto é do arquiteto João Afonso Garizo do Carmo, possuindo um invulgar sentido moderno, com movimentada volumetria, teve, porém, problemas sérios que afetaram a sua estrutura, encontrando-se abandonado.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Casa da Cultura na Cidade da Beira



Projeto de autoria de Paulo de Melo Sampaio, Bernardino Vareta Ramalhete e José Augusto Moreira, para alojar o Auditório e Galeria de Arte da Beira. A sua inauguração, não oficial, viria a ocorrer a 6 de Maio de 1972, tendo-se envolvido toda a comunidade beirense na sua construção.


Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Capela de S. João Baptista na Cidade da Beira


Foi a primeira igreja da cidade, tendo sido inaugurada em 5 de Outubro de 1893. Esteve aberta ao culto até Janeiro de 1906, sendo demolida em 1908, com exceção da torre que serviu para nela se instalar o Observatório Meteorológico.

 
Fonte: Arquivo Pessoal

Moçambique: Antiga Cadeia na Cidade da Beira



A sua localização inicial era junto do edifício do Tribunal, tendo-se efetuado ali algumas obras em 1907. Verificou-se posteriormente que o local escolhido não tinha as dimensões suficientes para a acolher. Escolheu-se então um local nas proximidades do Chiveve, ao lado do antigo Arsenal. Foi projetada e construída pela Direcção de Obras Públicas, tendo ficado concluída em 1922.


Fonte: Arquivo Pessoal

3 de março de 2014

Domingo de Angola (Ernesto Lara Filho)



Para mim, domingo de Angola é paraíso. É um Céu. Colorido. É moamba de peixe ou caril de galinha de Quilengues. Domingo de Angola não tem rival no mundo. Começa na praia e acaba na sesta. Não tem Sporting-Benfica, nem linha de Sintra, não tem passeio a Vila Franca. Não tem touros, nem Cacilhas, nem caracóis no Ginjal. Domingo de Angola, para mim, é o melhor domingo do mundo que eu conheço – e que já não é nada pequeno, benza-o Deus.

Moamba para mim é um ritual. Tem pirão de fuba de mandioca – que eu sou do Sul, usa-se de milho, mas eu prefiro de mandioca à moda do Norte, à moda de Malanje, tal qual no Uíje – mete farinha de pau e obrigado velha que está uma delícia. Tem de ser comido à sombra de um palmeira ou coqueiro, debaixo de uma mandioqueira ou mangueira quando é no interior. Porque coqueiro só no litoral. É por estas e por outras que eu gosto do domingo em Angola. Domingo de Branco. Domingo de Preto. Domingo de todos, domingo de missa, de padre, de domingo.

A verdadeira moambada, aquela que é feita de galinha tenra, tão tenra que sabe a peito de virgem, a moamba verdadeira, tem de ser do cacho primeiro da palmeira do quintal. O molho será apurado pelo velho cozinheiro, que foi mestre dos pais, dos filhos e dos filhos dos filhos. Tem molho que é de “come e arrebenta e o que sobra vai no mar” como dizia o poeta patrício e mulato Viriato da Cruz, no “Sô Santo”. Moamba verdadeira, repito, só se come duas ou três vezes na vida. É preciso estar-se em estado de graça. Estar-se com Nosso Senhor e com os anjos.

Moamba para mim, é saudade, hoje que estou longe, hoje que estou perto. Estou perto de estar tão longe. Não compreendem leitores? A gente está longe e tem saudades. Antes de adormecer, pela noite, vem a lembrança, da pitangueira do quintal, da Rosa Lavadeira, do amo-seco Canivete que falava “axim” à moda de Viseu, e tudo isso aparece nítido, cada vez mais claro e puro como certas horas da madrugada da Serra do Lépi. A primeira vez que comi moamba, dela me lembro como da primeira vez que beijei mulher, do primeiro desafio de futebol, do primeiro amor nocturno na areia da praia, com mulher de verdade. A primeira moamba, lembra-se como se lembra a primeira ida à escola.

O travo nativo do cacho de déndém, que leva meses a fazer-se, até os frutos terem a tonalidade da queimada. Metade o clarão no céu da noite, a outra metade, escuro, um escuro de breu. Tudo isso o sabor tropical junta naquele fruto, que tem brisa do mar, sol de praia, frescura de casuarina, amor de mulata. O coconote e as influências indianas nadando no molho. Tem jindungo, a moamba genuína, aquela que cheira a sândalo, que escorre do canto da boca, do patrício apaixonado, de olho rútilo e lábio trémulo. Mas a galinha, essa tem de ser de Quilengues, magra e criada no mato, quase sem penas, galinha de sanzala, galinha de preto, que é como quem diz, de pobre. Isto está divinal, velha, eu um dia volto. Se entra a erva-doce, zumba que zumba e farinha de pau, oh, céus, oh, Mãe, isto não é moamba, isto é poesia. Literatura.

Mas tem de ser comida no terreiro da casa de adobe do bairro velho. Tem de ser comida em ritual, na casa de adobe com telhado de zinco da estrada da escola da Liga, ou num dos Muceques de Luanda, por sobre as areias avermelhadas do Prenda ou do Burity.

Depois a altura do peito de mulher na moleza da carne ou do peixe. Se é “roncador”, aka, é peixe da costa e sabe que sabe tão bem. Mas de galinha é melhor. Galinha de Quilengues escanifrada, repito. Galinha de pobre.

Fico por momentos em êxtase, as mãos sobre o estômago, lembrando o terreiro da família Gamboa lá de Luanda onde comi uma coisa dessas uma vez há muitos anos. Num bairro velho de Benguela, eu estarei ainda um dia com meus companheiros dos tempos de eu menino, comendo moamba e bebendo quissângua à sombra do bambu do Edelfride – na casa do Edelfride.

Moamba é riqueza de pobre e fraqueza de rico. Entra em palácios sem pedir licença, com o mesmo à vontade com que se senta nos quintais com sombra de mangueira e entra em terrina de esmalte, prato de esmalte, caneca de esmalte, garfo de alumínio. Velho sonho de poeta, lembrança de castimbala, moambada para mim é saudade e sonho, recordação e batuque, história de amor.

Um dia, quando eu voltar, hei-de comer uma moambada de peixe ou de carne, à sombra de um cajueiro, num Muceque de Luanda, moamba do cacho primeiro da palmeira do quintal, não é velha? Depois de muito beber dormirei a sesta. E hei-de gostar de ouvir um desses rapazes do meu tempo, feito velho de cabelos brancos, recitar baixinho enquanto adormeço, a balada do Viriato:

“… Kitoto e batuque pró povo lá fora champanha, ngaieta tocando lá dentro…

Garganta cantando:

“Come e arrebenta

E o que sobra vai no mar…”

Para mim, domingo de Angola é isso tudo. Um Céu colorido. Uma moamba de peixe. Uma noite de luar.

… não tem Sporting-Benfica, não tem touros, nem caracóis no Ginjal…


in Jornal de Notícias, 1957

Maputo (antiga Cidade de Lourenço Marques)

E se D. Afonso Henriques, afinal, nasceu em Viseu? (Amadeu Araújo)


E se D. Afonso Henriques não tivesse, de facto, nascido em Guimarães? A tese do falecido historiador Almeida Fernandes, posteriormente admitida por José Mattoso, serve de base à decisão da Câmara de Viseu de comemorar os 900 anos do rei-fundador. Mas Guimarães também vai comemorar.

Guimarães e Viseu reclamam ser local de origem do rei.

À primeira vista, parece uma disputa bairrista de duas cidades em torno de um evento: Guimarães e Viseu vão comemorar ambas o nascimento de D. Afonso Henriques.

Como os académicos têm vindo a lançar dúvidas sobre o efectivo local de nascimento de D. Afonso Henriques, fundador de Portugal, os 900 anos do primeiro rei português vão ser celebrados em dose dupla: Viseu e Guimarães reclamam-se local de origem do primeiro rei de Portugal e preparam-se para, em 2009, celebrar o aniversário do nascimento do rei que separou o condado portucalense de Castela.

"Ainda ontem estivemos a decidir pormenores da celebração que irá ser levada a cabo por uma comissão, de reconhecido mérito", disse ao DN Fernando Ruas, presidente da Câmara de Viseu.

A cidade governada por Fernando Ruas descobriu em 1993 que o primeiro rei poderia lá ter nascido, mas só no ano passado retomou a defesa de Viseu como local de nascimento do monarca que fundou a nacionalidade.

Em Guimarães, "cidade berço da nação", não restam dúvidas de que ali D. Afonso Henriques "nasceu e morreu em Coimbra, onde está sepultado". A informação consta do sítio da internet da autarquia vimaranense e a pretensão viseense não faz mossa.

O DN tentou, sem sucesso, ouvir o presidente da Câmara de Guimarães. Mas, em declarações ao JN, António Magalhães afirmou que, para a Câmara de Guimarães, a pretensão de Viseu "é um assunto que não suscita qualquer incómodo".

"Apreciamos que a figura de D. Afonso Henriques continue a ser objecto de estudos para que se faça justiça à vida e obra do nosso primeiro monarca", disse Magalhães.

Também o presidente da Câmara de Viseu Fernando Ruas reconhece que a evocação por Viseu do nascimento de D. Afonso Henriques, "será uma celebração sem qualquer picardia com Guimarães, cidade que muito estimo e de cujo autarca sou amigo pessoal".

Apesar disso, as últimas teses defendidas por diversos académicos, com José Mattoso à cabeça levaram a cidade de Viseu a lançar mão da ideia e com isso "comemorar de forma digna os 900 anos do nascimento do primeiro rei de Portugal".

O edil viseense até tem uma explicação simples para não beliscar a convicção de que Guimarães é a cidade berço da fundação. "O rei podia aqui ter nascido e fundar o berço da nacionalidade em Guimarães. Alguns estudiosos dizem, sem dúvidas, que o rei nasceu em Viseu não podíamos deixar de dar força a esta constatação e celebrar o facto".

Para o presidente da Câmara de Viseu, "há cada vez mais historiadores a defender esta posição".

"Nós não estamos a alimentar polémicas, mas a deixar que os académicos prossigam o seu trabalho", acrescentou Fernando Ruas.

E enquanto os historiadores não chegam a certezas, no próximo ano Viseu e Guimarães vão assinalar os 900 anos do nascimento de D. Afonso Henriques. Decisão consubstanciada por historiadores como Adriano Vasco Rodrigues, especialista da Universidade do Porto no período medieval, que lembra que "esta é uma questão académica. O que interessa é o papel em prol da fundação, mais do que o local onde nasceu".

E se as dúvidas relativas ao ano de nascimento do primeiro rei acabaram de forma consensual em torno de 1109, a sintonia sobre o local tarda em chegar. Assim, depois de anos de esquecimento, só relevados com a eleição dos Grandes Portugueses, o nascimento do primeiro rei vai ser celebrado em dose dupla. Até que os historiadores clarifiquem.

Diário de Notícias 17-9-2008